EPISTEMOLOGIAS EM CONFLUÊNCIA: NÊGO BISPO E A EXPANSÃO INTERDISCIPLINAR DOS ESTUDOS DA INFORMAÇÃO

  • Autor
  • Fernanda Aidê Seganfredo do Canto
  • Co-autores
  • José Claudio Matos , Daniella Camara Pizarro
  • Resumo
  • Este artigo propõe um diálogo teórico-conceitual entre a Ciência da Informação (CI) e o conceito de confluência, formulado por Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), como chave para integrar epistemologias plurais, especialmente aquelas produzidas por povos e comunidades tradicionais (PCT), sem hierarquizá-las ou homogeneizá-lasParte-se do reconhecimento de que a CI se constitui como um campo interdisciplinar, com forte vocação para a mediação entre saberes, tecnologias, práticas culturais e sociedades (Saracevic, 1996), o que a posiciona como espaço privilegiado para promover encontros entre diferentes modos de produzir, transmitir e preservar conhecimentos.  

    Historicamente, os estudos da informação tendem a centralizar o documento e a técnica, relegando formas não hegemônicas de registro, conservação e circulação do conhecimento. O conceito de confluência, cunhado por Nêgo Bispo, oferece uma alternativa teórica ao pensar a coexistência de saberes sem síntese ou assimilação, a partir da metáfora dos rios que se encontram sem se misturar. Ao articular comunicação e informação, argumenta-se que a CI pode ampliar seu escopo epistemológico ao reconhecer que os PCT possuem modos próprios de produção, transmissão e preservação do conhecimento, ancorados na oralidade, na ancestralidade e na relação com a natureza. Avança-se, assim, para uma compreensão que desloca o documento do centro e considera a natureza como base relacional da vida (Haraway & Tsing, 2019). 

    Nêgo Bispo foi lavrador, poeta e liderança quilombola. Desde jovem, foi encarregado de ser o relator de saberes de sua comunidade, Saco do Curtume, São João do Piauí. Unindo conhecimentos, semeou novas palavras e movimentou conceitos. Para ele, as palavras funcionam como sementes: quando cuidadas, germinam, criam raízes, produzem frutos e se espalham. Entre os conceitos que lançou e que passaram a frutificar está o de confluência, um convite a ser como os rios que se somam sem se misturar (Bispo dos Santos, 2023).  

    A experiência da bioarqueóloga indígena Bibi Nhatarâmiak Borun-Kren oferece um exemplo contemporâneo das possibilidades de diálogo entre distintas matrizes de conhecimento, sem que se sobreponham. Sua pesquisa (Borun-Kren, 2024) se refere a Nimu Borum, uma criança indígena sepultada de forma especial, que teve seus ossos pintados de vermelho e foi envolta numa casca de árvore de Pau Santo, entre 600 e 1300 anos atrás. Essa visão do documento como espaço de diálogo entre gerações, mediador entre vivos e encantados, e lugar de cuidado ilumina possibilidades epistemológicas ainda pouco exploradas pela CI.  

    As reflexões aqui reunidas indicam que os estudos da informação podem ampliar seu escopo ao incorporar perspectivas contra-coloniais que concebem memórias, conhecimentos e informações a partir da relacionalidade e da coexistência das diferenças. A confluência surge como alternativa ao paradigma linear que historicamente orientou a área, reafirmando a Ciência da Informação como espaço de mediação entre disciplinas, saberes técnicos, saberes ancestrais e comunidades diversas. Ao fazê-lo, não abandona sua identidade: fortalece-a. Essa abertura implica, simultaneamente, no reconhecimento dos conhecimentos transmitidos oralmente e na ampliação do acesso às ferramentas de produção, organização e gestão da informação por comunidades historicamente marginalizadas. 

  • Palavras-chave
  • Ciência da Informação; Confluência; Saberes tradicionais; Mediação da informação.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 2 - Comunicação popular, alternativa e comunitária
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